terça-feira, 14 de junho de 2011

Sem Explicação



É inegável como o corpo fica mais reto quando ele aparece e o sorriso instantâneamente pousa nos lábios dela. Força um pouco mais a vista pra ver aonde ele vai e se pra ela vai olhar. Não olha. Mas ela já ficou feliz, porque ele está alí tão pertinho... Estranho imaginar como tudo aconteceu. Como tudo não aconteceu. Nunca olhara pra ele, pelo contrário, desviou o olhar em outra direção mais confortável e ele, que sentara ao seu lado, passou despercebido como o vento que batia copiosamente. Ela olhou pra ele, mas não o viu. Ouviu a voz, mas não prestou atenção na leveza e na suavidade que seria ter uma voz daquela tão próxima de si. O olhar era tão compenetrado no que estava a frente, que ela se esquecia insistentemente de olhar para o lado. Vamos dar um trégua, uma colher de chá: estava escuro com o cair da noite e ela só conseguia olhar para o que ela já havia enxergado, e o que ela havia enxergado era o que os olhos queriam ver. O outro ela não olhou, como já disse, no primeiro momento, e não seria no cair da noite escura que ela olharia. Passou tanto tempo que ela esqueceu que qualquer um deles existia, mesmo se lembrando todos os dias. Ele voltou, não o que ela havia olhado, mas o que ela não enxergou, o que ela não viu. Mas viu naquele instante. As coisas alí aconteceram, finalmente. Ela sentiu, sorriu, respirou. Era ele, na verdade, tudo o que ela queria enxergar. Tudo o que ela idealizou naquele outro, alí teria e com muito mais qualidade. Sentiu tanta alegria, mas a renuncia aconteceu quando ela descobriu que nem todo mundo que enxerga tem boa visão. Ele não seria pra ela, porque já era pra alguém. Tarde demais, ela disse, te enxerguei e não consigo mais parar.

Marina Lemos