sábado, 9 de julho de 2011

Ninguém


Sapato baixo, calça larga e cabelo preso. Esquentou e seus ombros tensos agradecem. Que cara bonita é essa? Já logo no elevador. Ah, devo ter dormido bem. Bom dia, bom dia. Olha, você está muito bonita hoje. Um fala, outro concorda. E pelos corredores, sorrisos dão continuidade aos elogios. O que é? Que segredo ela guarda? Que novidade é essa? Na cozinha perguntam: novo amor? No estacionamento perguntam: voltou com alguém? No restaurante, na hora do almoço: é alguém novo? Cruza com um namorado antigo "nossa, você tá muito... é o quê? Sexo? A noite toda? Conta, vai, eu agüento ouvir". Contar o quê? No espelho, enquanto escova os dentes, fecha os olhos e sabe pra si o segredo: ninguém. Não gostar de ninguém. Nada. Nem um restinho de nada. Nem de tudo que acabou e nem de nada que possa começar. Nada. Pouco importa qualquer outra vida do mundo. Não é nem pouco, é nada mesmo. Um dia inteiro para achar gostosas coisas bobas como um pacote de pipoca doce, um tênis pink ou a hora do banho quente com músicas recém baixadas e o tapetinho vermelho. Um dia inteiro sem escravidão. O celular, o e-mail, o telefone de casa, o ar, o interfone, a rua. São o que são e não carrascos que nada dizem e nada trazem. Um coração calmo, se ocupando de mandar sangue para as horas felizes de trabalho, estudo, yoga, massagem, dormir, bobeiras, pilates, comer, rir, cabelo, filmes, comprar, trabalhar mais, ler, amigos . É isso. Uma agenda enorme que a ocupa de ser ela e não sobra uma linha de dia pra lamentar existências alheias. Linda, ela segue. Linda e feliz como nunca. O segredo do espelho, escovando os dentes, sozinha, aperta os olhos, segura a alma um pouco sem respirar. Segura a pasta pensando que é um pouco de alma consistente na boca. Não cospe, suporte. Ela pode finalmente suportar seu peso e não dividir isso nem com o ventinho que entra pela janela. Nem com o ralo que a espera boquiaberto. A sensação é a da manhã seguinte que o papai Noel deixava os presentes: não é mentira, é só um jeito de contar a verdade com algum encantamento.
Tati Bernardi

O Amor




Semana passada liguei pro meu melhor amigo e convidei para um cinema. A gente não se falava desde o ano novo, quando tudo deu errado pro nosso lado. De tempos em tempos sumimos, falamos umas coisas horríveis de quem se conhece demais. Ele topou desde que fosse daqui pra frente, preguiça de conversar da briga e tal. E fomos. Cheguei antes, comprei. Ele chegou depois, comprou água. Porque eu comprei os ingressos, ele comprou também uns doces e disse que pagaria o estacionamento. Porque ele pagaria o estacionamento, eu disse que daria a carona da volta. E com meu coração tão calmo eu voltei a sentir o soninho de sofá de casa com manta que sinto ao lado dele. A gente não se beija nem nada, mas quando vai ver pegou na mão um do outro de tanto que se gosta e se cuida e se sabe. [...] Mas evoluímos para esse amor que nem sei explicar. Ele me conta das meninas, eu conto dos caras. Eu acho engraçado quando ele fala "ah, enjoei, ela era meio sem assunto" e olha pra mim com saudade. Ele também ri quando eu digo "ah, ele não entendeu nada" e olho pra ele sabendo que ele também não entende, mas pelo menos não vai embora. Ou vai mas sempre volta. Não temos ciúmes e nem posse porque somos pra sempre. Ainda que ele case, more na Bósnia, são quase quinze anos. Somos pra sempre.[...] Se ele me corta é como se a frase que eu fosse falar fosse mesmo dele. [...] Minha maior tristeza é que todo novo amor que eu arrumo vem sempre com algum velho amor tão longo e bonito. E eu sofro porque com pouco tempo não consigo ser melhor que o muito tempo. E de sofrer assim e enlouquecer assim, nunca dou tempo de ser muito para esses amores porque estrago antes. Mas meu melhor amigo é meu único amor. O único que consegui. Porque ele sempre volta. E meu coração fica calmo. E ele vai comigo na pizzaria e todos meus amigos novos morrem de rir porque ele é naturalmente engraçado e gente boa e sabe todos os assuntos do mundo. E todo mundo adora meu melhor amigo. E eu amo ele. E sempre acabamos suspirando aliviados "alguém é bobo como eu, alguém tem esse humor". E esse é meu presente dessa fase tão terrível de gente indo embora. Quem tem que ficar, fica.
(Tati Bernardi)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

"Mas chega, se não houve troca, chega, porque amar sozinho é solitário demais, abandono demais, e você está nessa vida para evoluir, mas não para sofrer.Hoje eu acordei sem ter quem amar, mas aí eu olhei no espelho e vi, pela primeira vez na vida, a única pessoa que pode realmente me fazer feliz. "
Tati Bernardi


OUT


Pra balanço. Pra reformas. Pra visitação. Tanto faz.

Seu Nome


Certa vez me disseram que o melhor método de aprendizado era a repetição. Repeti cem vezes em uma folha a sentença onde constava que eu deveria te esquecer. No fim das cem frases não consegui me lembrar do "devo esquecer", mas somente enxergava o seu nome em letras garrafais. E foi o que ficou guardado na minha mente e no meu coração.

Marina Lemos

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Para Uma Avenca Partindo

Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender.
Caio Fernando de Abreu

sábado, 25 de junho de 2011

-



"Eles se amam. Todo mundo sabe mas ninguém acredita. Não conseguem ficar juntos. Simples. Complexo. Quase impossivel. Ele continua vivendo sua vidinha idealizada e ela continua idealizando sua vidinha. Alguns dizem que isso jamais daria certo. Outros dizem que foram feitos um para o outro. Eles preferem não dizer nada. Preferem meias palavras e milhares de coisas não ditas. Ela quer atitudes, ele quer ela. Todas as noites
ela pensa nele, e todas as manhãs ele pensa nela. E assim vão vivendo até quando a vontade de estar com o outro for maior do que os outros. Enquanto o mundo vive lá fora, dentro de cada um tem um pedaço do outro. E mesmo sorrindo por ai, cada um sabe a falta que o outro faz. Nunca mais se viram, nunca mais se tocaram e nunca mais serão os mesmos. É fácil porque os dias passam rápidos demais, é dificil porque o
sentimento fica, vai ficando e permanece dentro deles. E todos os dias eles se perguntam o que fazer. E imaginam os abraços, as noites com dores nas costas esquecidas pelo primeiro sorriso do outro. E que no momento certo se reencontrem e que nada, nada seja por acaso."
Tati Bernardi

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Fotografia

Você não sabe mas eu tenho uma foto sua
Que eu fico olhando o tempo inteiro
Querendo você pra mim
Ás vezes me pego perdida
Andando pelas ruas, e a sua imagem
Continua onde eu vou, é sempre assim
Fico olhando nos seu olhos
Sem ao menos te tocar
Entrar nessa fotografia é
Tudo que eu queria
Pra pode te amar
Sentir o sabor do seu beijo
É tudo que eu preciso e nada mais
Se eu pudesse tranformar em vida
Um segundo apenas meu desejo
Você saberia a falta que me faz.
Ás vezes fico tão ligada na fotografia
Que parece até, que o seu olhar está querendo me dizer
Que um dia pode ser real a minha fantasia
Que ao seu lado na fotografia, eu iria aparecer
Fico olhando os teus traços
Nunca vi tamanha perfeição
Eu daria minha vida pra ficar
Um dia no seu coração
Sentir o sabor do seu beijo
É tudo que eu preciso
E nada mais.
Se eu pudesse Tranformar em vida
Um segundo apenas meu desejo
Você saberia a falta que me faz.

(Paula Fernandes)

O Cartão



Eu tinha dezessete anos e era louca por um cara com quem trocava olhares, não mais que isso. Ele era o legítimo "muita areia pró meu caminhão" e jamais acreditei
que pudesse vir a se interessar por mim, o que me deixava ainda mais apaixonada, claro. Mulher adora um amor impossível.
Então chegou o dia do meu aniversário. No final da manhã eu estava em casa, contando os minutos para uma festa que daria à noite, quando a empregada apareceu com um cartão nas mãos, dizendo que o zelador o tinha encontrado embaixo da porta do prédio. Abri e fiquei azul, verde, laranja: era dele! Corri para o telefone e liguei
para a minha melhor amiga. "Que trote bobo, você quase me mata de susto, pensa que não sei que foi você que escreveu o cartão?" Ela jurou por todos os santos que
não. Liguei para outra amiga. "A letra é igual a sua, eu sei que foi você!" Não tinha sido. Liguei para outra: "Você acha que eu vou acreditar que um cara lindo
que nunca me disse bom dia veio até aqui largar um cartão amoroso desses?" Ela me recomendou terapia. bom, diante de tantas negativas, só me restou pensar: "Outra hora eu descubro quem é que está tirando uma comigo".
E esqueci o assunto.
Semanas depois estava caminhando na rua quando encontrei o dito cujo. Ele resmungou um oi, eu devolvi outro oi, e então ele perguntou se eu havia recebido o cartão de aniversário. Minha pressão caiu, minhas pernas fraquejaram,eu só pensava: mas que idiota eu fui! O que iria responder? "Recebi, mas jamais passaria pela minha cabeça que um homem espetacular como você, que pode ter a mulher que escolher, fosse entrar numa papelaria, comprar um cartão, escrever um texto caprichado, depois descobrir meu endereço e então pegar o carro, ir até a minha rua,
colocar o envelope embaixo da porta feito um ladrão, e aí voltar para casa e aguardar meu telefonema. Olhe bem pra mim, eu não mereço tanto empenho."
Respondi: "Que cartão?"
Ele soltou um "deixa pra lá" e foi embora se sentindo o mais esnobado dos homens. E assim terminou uma linda história de amor que nunca começou. Anos depois nos
encontramos casualmente e tivemos um rapidíssimo affair, mais aí já não éramos os mesmos, não havia clima, ficamos juntos apenas para ver como teria sido se. Vimos.
E não escutamos sinos, não fomos flechados pelo Cupido. Cada um voltou para a sua vida e nunca mais tivemos notícia um do outro.
Contei essa história para um amigo outro dia e ele comentou que conhecia outras mulheres assim. Epa, assim como? Ora, assim medrosa, desconfiada, temendo pagar micos
diante da vulnerabilidade que toda paixão provoca. Ele estava certo. Era assim mesmo que eu me sentia aos dezessete anos: medrosa e incapaz de levar um grande amor
adiante. Quando recebi o tal cartão, deveria ter ligado imediatamente para o meu príncipe encantado para agradecer e convidá-lo para a festa.
E se ele tivesse dito: "Que cartão?"
Eu responderia: "Deixa pra lá, mas venha à festa assim mesmo". E então eu assumiria as conseqüências, não importa quais fossem. O nomezinho disso: vida. É sempre
uma incógnita, portanto não vale a pena tentar fugir das decepções ou dos êxtases, eles nos assaltarão onde estivermos. Se você for uma garota boba como eu fui, acorde. Ninguém é muita areia pra ninguém. Pessoas aparentemente especiais se apaixonam por outras aparentemente banais e isso não é um trote, não é uma pegadinha, não é nada além do que é: um inesperado presente da vida, que todos nós merecemos.

(Martha Medeiros - Doidas e Santas)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Mulher a moda antiga



Criada debaixo da saia da mãe; fui. Educada para ser grata, para pedir licença, para dizer obrigada. Para ser coberta a noite ao sentir frio, sem pedir. Para receber os melhores presentes, fora do aniversário. Para ser idolatrada até não querer mais e acordar com flores da cabeceira da cama, espanto, quase derrubando o café da manhã que me aguarda sobre a minha cintura, tão bem feito. Nasci para caminhar de mãos dadas, antes de qualquer aproximação maior da carne. Feita para esperar o amor bater a porta com frio, molhado da chuva, pedindo um canto do meu coração pra se aquecer. Feita para ser convidada para jantar, para ser levada em casa. Para ser guardada, para obedecer ordens da igreja, dos meus pais, do meu coração. Tão antiquada que me sinto em pleno século XX ao perceber que todas ao meu redor, procuram valores diferentes. Sou mais, sou menos? Nem eu sei. Que sou tudo que elas jamais ousariam ser. Que a minha vida se encaixa perfeitamente no enredo da rádio-novela que acabou de começar, que me apaixono pela voz do locutor e durmo ouvindo a voz dele. Que respeito os meus limites, e não sou dona do nariz, olhos e boca e vida. Sou dona de alguma coisa? Sou dona dos meus cd's, dos meus ouvidos, eu sou. Que acordo ouvindo Silhoutte do Kenny G e não ligo, de pensarem que sou a pessoa mais brega do mundo. Que espero casamento acompanhado dessa musica, mas antes, espero namoro de sofá, em casa.
A minha infância adormecida em meus pensamentos se impõe, estou na época errada? O mundo tão desenvolvido e eu me sentindo tão pequena nele, vim dele? Nasci para viver nele? Não encontro quase ninguém que tenha a mesma linha de pensamentos. Que vejo mulheres se ridicularizando para chamarem atenção de homens, que na ultima das hipóteses vão desejar chamá-las de: "Minha!". Finjo que não ligo, para não parecer tão fora de moda assim, mas não sei como se faz. Não sei como agir em um mundo tão 2011 que me dá medo. O que eu estou fazendo no meio de tanta gente procurando por tudo, menos por amor? Menos por fidelidade e sinceridade. Que não me contento em ser qualquer coisa e sou julgada por isso. Que meu fim será em cadeira de balanço -que eu já tenho- envolvida por mil tricô's mal terminados, assim como tudo que me envolve também. Estou errada? As poucas amigas que tenho aproveitam tanto a vida da maneira que acham certo, que me canso por elas. Os poucos homens que me apaixonei queriam uma única coisa de mim, na certa, a unica que eu não era disponível a ceder. E só fizeram eu reagir a um tipo de sentimento: A esperança e espera do próximo. O que faço aqui, no meio de tanta gente que só gostam do calor e ignoram o frio? Que não comemoram os meses de namoro e não ligam no fim da noite? Eu não sei o que faço aqui, mas há anos procura a saída de emergência. Se não for para ser essencial aqui, eu não quero. Se não for para ser a melhor, eu não serei nada.

Por: Bárbara Clara

Sem Explicação



É inegável como o corpo fica mais reto quando ele aparece e o sorriso instantâneamente pousa nos lábios dela. Força um pouco mais a vista pra ver aonde ele vai e se pra ela vai olhar. Não olha. Mas ela já ficou feliz, porque ele está alí tão pertinho... Estranho imaginar como tudo aconteceu. Como tudo não aconteceu. Nunca olhara pra ele, pelo contrário, desviou o olhar em outra direção mais confortável e ele, que sentara ao seu lado, passou despercebido como o vento que batia copiosamente. Ela olhou pra ele, mas não o viu. Ouviu a voz, mas não prestou atenção na leveza e na suavidade que seria ter uma voz daquela tão próxima de si. O olhar era tão compenetrado no que estava a frente, que ela se esquecia insistentemente de olhar para o lado. Vamos dar um trégua, uma colher de chá: estava escuro com o cair da noite e ela só conseguia olhar para o que ela já havia enxergado, e o que ela havia enxergado era o que os olhos queriam ver. O outro ela não olhou, como já disse, no primeiro momento, e não seria no cair da noite escura que ela olharia. Passou tanto tempo que ela esqueceu que qualquer um deles existia, mesmo se lembrando todos os dias. Ele voltou, não o que ela havia olhado, mas o que ela não enxergou, o que ela não viu. Mas viu naquele instante. As coisas alí aconteceram, finalmente. Ela sentiu, sorriu, respirou. Era ele, na verdade, tudo o que ela queria enxergar. Tudo o que ela idealizou naquele outro, alí teria e com muito mais qualidade. Sentiu tanta alegria, mas a renuncia aconteceu quando ela descobriu que nem todo mundo que enxerga tem boa visão. Ele não seria pra ela, porque já era pra alguém. Tarde demais, ela disse, te enxerguei e não consigo mais parar.

Marina Lemos

domingo, 5 de junho de 2011

Complexa



Sou conhecida pelo que falta, pelo que não sei e pelo que não vem. De tanto pensar e escrever no espelho do banheiro depois do banho, embassado. Por debaixo de um rimel bem aplicado, existe olhos que choraram.. cansaram, prometeram, além de olharem. Bastante! Desejaram conseguir reações através de pensamentos, como me ensinaram. Não devo ter aprendido direito; não veio. Rodeada por amigos imaginários suprindo a falta que me faz um ombro, um colo, um abraço. Que hoje me entendo como subentendida e provoco o silencio ao me perguntarem o que é que eu tenho. Se perguntarem pra você qual é o meu status diga que não sabe, nem eu sei. Apaixonada por perguntas sem respostas, entendo as coisas mais complexas e não entendo o óbvio. Ou não quero enxerga-lo! E ao admitir isso, meus olhos até que ameaçam se abrir, me iludindo como forma de carinho, mas se fecham. Grande novidade! Respondo, revido e só me sinto culpada por não me arrepender, por ter uma personalidade que de tão forte, me bate. Apanho, me curo e faço tudo de novo. Recomeço a minha vida todos os dias, grande parte da noite. E as inseguranças que me seguem se consolam entre si ao verem minhas vitórias, repentinas, passageiras; mas vitórias! Que em grau de felicidade, evolui. Aprendi, mas me pego querendo brigar com o coração que ultimamente, anda tão quieto que me vi sendo obrigada a parar e sentir se ele ainda batia. Fujo de quaisquer que sejam as responsabilidades que a vida me dá, ignoro as conseqüências e adoro, confesso. E só tenho pena, desdém do que é passageiro, do que não é verdadeiro. Me encontro todos os dias querendo descobrir afinal: Quem eu sou? Que não perco o habito de embassar os vidros do onibus também sempre que me vejo fazendo e refazendo essa pergunta, onde quer que eu esteja. Que eu receio contar, mas ao diário devo ter confessado: Essa armadura tão forte só funciona para quem não me conhece. Até estranham.
Invento problemas quando tá tudo certo, gosto do inesperado. Gosto de conseguir quando achava que estava tudo perdido! Talvez eu seja uma coitada, talvez eu mereça. Só consigo sonhar e há quem tenha pena de mim. Eu só queria agora, levantar de uma maneira diferente dessa cadeira. Possuindo um charme a-lá Marilyn Monroe, só queria hoje aparentar a mulher forte que não sou. E se sou, ainda não conheço. E me sentiria grata a quem a apresentasse para mim, quando tivesse um tempo livre. Canto enquanto não encontro, usando quase-sempre mesmas palavras. Enquanto eu descubro quem eu sou, todos ao meu redor pensam que tem certeza. Mas surpreendo, positivamente ou não. Entro em acordo comigo mesma e combino de pensar mais sobre isso amanhã. Afinal, estou feliz. Estou mentindo, estou feliz!

Por: Bárbara Clara

 

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Por não estarem distraídos


Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
Clarice Lispector

como queria que fosse diferente.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O quarto secreto, teu quarto

Este então é o teu segredo. Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.
Clarice Lispector


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Primeiro de Junho


Há alguns minutos atrás ainda era o meu aniversário e, segundo minha avó, ele só acaba no dia primeiro do mês que vem. E como eu acredito fielmente nas palavras dela, ainda estou comemorando meus longos dezenove anos de vida. Hoje eu tive comigo pessoas que compõe a minha vida de uma forma que ninguém nunca antes fez. Pessoas que têm estado comigo e me feito querer estar com elas para o resto da vida. Em mais esse ano de vida eu posso olhar pra trás com tanta alegria. Com algumas tristezas, sim. Mas as tristezas não me afetam nem me doem, já as alegrias me remetem àquela felicidade de antes e por isso eu sou feliz, porque guardo boas lembranças de dezenove anos vividos, batalhados, sonhadores. E vejo mais ainda, que mudei muito, mas não mudei nada de mim, nunca me mudei, apesar de ter mudado. Entende? Eu cresci (exceto pela altura) mas não mudei as vontades e desejos dentro de mim. Os sonhos são os mesmos e os ideiais também e eu sou tão feliz por não ter mudado. Mudar demais confunde suas convicções. Mudei algumas maneiras de pensar, de agir e de falar. Mas nada mudou no meu sorriso, no meu ser e no meu sentir, apesar de achar que mudando esse último faria um bem danado ao meu coração. Mas, como diria minha ispiradora Clarice, é preciso viver apesar de. E eu vivo, muito feliz, obrigada. Com essas mesmas pessoas que estiveram comigo nesse dia tão especial e alguns outros que por algum motivo não estiveram.

Rumo aos vinte, começando agora, fazendo tudo o que eu puder fazer para ser verdadeiramente feliz até lá.

Marina Lemos, pós festinha de aniversário.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Espera

sexta-feira, 27 de maio de 2011

-

 
 
E ficamos nessa de vai e não volta, nessa indecisão de uma certeza, na negação de uma vontade. Eu te amo e você me ama, mas o nosso amor não é o suficiente para nos unir. Precisamos de algo que ainda não temos, e talvez nunca venhamos a ter. Preciso ser minha antes de ser sua, e você precisa ser seu antes de ser meu. Mas você é da menina que mora na rua atrás da sua casa, e eu sou do cara que conheci em uma balada qualquer da vida. Somos tão diferentes, mas tão completos quando estamos um ao lado do outro. Poderíamos ser tão felizes, poderíamos ser tão amor...
 Tati Bernardi

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Cinderela

Ela é a espera.
A espera desse encantado que a salvará da torre, da bruxa e das intempéries cotidianas.
Vai longe o tempo de entender que é preciso ser o príncipe de si mesma.

Por: Vitor Quintan

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ele



Ele é tão idiota. E bobo. E crianção. E chato. Mas ninguém me faz sentir o que ele faz quando toca em mim. Quando deixa sem querer, ou quase sem querer, uma parte dele tocar em uma parte minha. Quando por um motivo ou outro, a mão dele vem parar na minha. E alí fica. É tão estranho olhar pra ele e ver que tudo se encaixa, tudo é certo e perfeito para ser. Mas não é. Não é porque não é. Sem explicações maiores. Porque Deus não quis. Porque a vida não quis. Porque nós não quisemos, ou até quisemos, mas não tanto assim a ponto de querer. Não perco horas pensando nele, nem sofro como deveria nesses casos. As horas ao lado dele passam como qualquer outra hora ao lado de qualquer outra pessoa, mas é no final dessa hora... que ele vem. Ele, o sorriso. Não um simples sorriso, mas aquele de quando você lembra uma coisa engraçada ou que te proporciona a alegria espontânea. Sorrio porque penso que ele poderia ser meu. Sorrio porque lembro que ele não é, mas mesmo assim de alguma forma ele está em mim. E eu nele também. Ele sabe. Eu sei que sabe. Não nega, mas também não abre. Depois de sorrir, eu volto. Tenho tanta coisa pra fazer, tantos bodes pra resolver. Mas ele volta todo dia pra repetir meu mesmo sorriso pensante. Ele é idiota, bobo, crianção, chato... e eu? Eu sou louca por ele.

Marina Lemos

domingo, 22 de maio de 2011

Pequeno Grande Encontro.


Em meio a tanta gente conhecida se cumprimentando, sorrindo. Eu me deparo com você; acabo por fingir estou surpresa, embora agora eu ache que o melhor a fazer é fingir que sua presença não me causou reação alguma. Te encontro, e recomeço aqueles questionamentos e duvidas, curiosidade de saber o real motivo que  traz você alí. Com a esperança de que a resposta seja eu. Te encontro, não só você como aquele velho sorriso meio sem graça e o olhar meio desviado de sempre. Cá estamos nós, fingindo que esta tudo bem, sempre esteve. Sorrindo por não termos muito o que dizer, acostumados com o silencio que nos ronda de uma forma inacreditável. Puxando assuntos ridículos e míseros. Na verdade, não era nada disso que queriamos estar dizendo agora. Por alguns segundos parecemos não nos preocuparmos com o que algumas pessoas ali que conhecem a nossa história de cor, estão pensando pelo fato de estarmos ali, um de frente para o outro depois de tantos sentimentos jogados pelos ares. Finjo que não entendo essa sua magoa meio transparente, meio disfarçada de mim. Finjo que nem foi tão importante assim e que há muito tempo, deixei para trás. Entre pessoas me empurrando e esbarrando em mim - sem querer - ou até mesmo o destino fraco me colocando mais perto de você, eu olho para cima para encontrar os seus olhos, os encontro olhando para baixo, provavelmente para encontrar os meus. Como quem me faz recordar sobre aquelas suas piadinhas sem graça sobre a minha altura, que me deixavam profundamente irritava, te fazendo rir, mas deixando claro que se não fosse por ela, talvez você nem gostasse tanto de mim assim. Ao me recordar sorrio ao sentir que você se recordou também.
Escondo minhas mãos ao sentir que elas procuram ansiosamente pelas suas. Dispenso; qualquer tipo de lembrança que me faça cometer alguma loucura, que se compare com aquela de ter deixado você ir. Ao me lembrar que quando decidi por dizer que a minha vontade foi que você ficasse, você deixou claro que talvez fosse tarde, me irrito! E você percebe, do tanto que me conhece. Decido por me afastar, dizendo que vou procurar uma amiga, que foi bom te encontrar, sentindo aquela sua velha feição de: "eu quero tanto te dizer uma coisa.." E antes que eu queira mesmo saber que coisa é essa que nos move, ou nos faz ficarmos imóveis toda vez que estamos perto, vou para longe. Não olho para trás e não me arrependo por fugir assim da raia. Finjo que foi a coisa mais normal do mundo te encontrar e que a nossa conversa sem nexo não me fez suar. Permaneço longe; medrosa. Te vejo me olhando como quem não tivesse tirado os olhos um segundo se quer de mim, desde que sai do seu lado e que presenciou todas as minhas sensações, caretas e sorrisos, pós ficar tão perto de você. Fico sem graça, desvio como quem estava pensando em outra coisa. Me surpreende vindo a minha direção, andando lentamente, enquanto meu coração ensaia várias danças por esperar sua reação. E alí você me entrega o colar que deixei caí, de tanto segurá-lo forte em meio a nossa conversa, por não ter onde colocar a mão, por não ter preparado alguma reação antes. De tão sem graça que você consegue me deixar. Agradeço e peço desculpas, de não sei o que, mas peço de tão desastrada que sou. Você sorri, acredito que no fundo veio só pelo prazer de ver a minha reação quando é você que se aproxima. Meu susto, o espanto de pensar que talvez você tenha vindo por vontade louca sua. Caio em si, lembro que foi mesmo o colar o causador da sua repentina aproximação, mas não nego que suspiro ao pensar que ele tenha sido apenas uma desculpa para me ver sorrir pra você, de novo. Em meio a tanta gente assistindo esse espetáculo todo chamado: Eu e você. Resolvo ceder e ouvir os comentários, resolvo também concordar com eles. Eu mexo com você, tanto quanto você ainda mexe comigo!

por: Bárbara Clara


muito meu... e dele!

sexta-feira, 20 de maio de 2011

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"Eu te amei muito. Nunca disse, como você também não disse, mas acho que você soube. Pena que as grandes e as cucas confusas não saibam amar. Pena também que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha do que é bonito. Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas — se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será preciso. Essas coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só queria que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha — e tenho — pra você. Acho que é bom a gente saber que existe desse jeito em alguém, como você existe em mim.” 
 Caio Fernando Abreu
 

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Qual Ele?

As pessoas mudam, é verdade. As pessoas mudam pra pior, é uma pena.
Quando começo a te observar, de longe sem que me perceba, vejo o que eu nunca vi, o que eu nunca toquei nem senti. Como pode ter mudado tanto?
Não são mais os mesmos olhos, a mesma voz, nem o mesmo sorriso... é tudo inventado.
As outras pessoas comentam que, de fato, algo nele está diferente. Alguma coisa fez com que ele mudasse. Mas não. Isso não é um elogio. Na verdade, isso é uma tese sobre o compartamento estranho, da pessoa mais natural que eu já conheci e que hoje já foi alterada.
Sinto falta de quando ele era ele mesmo, diferente de agora que ele é o que achar que precisa ser.
É uma pena, repito.

Marina Lemos

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Nem Tanto
























Nós agora estamos rindo baixinho da situação que a vida quiz nos colocar nos fazendo questionar sobre destino, sobre acaso, sobre todos os reais motivos para dar certo. Ou nem tão certo assim. Que a gente finge tão bem que não se conhece quando na verdade fizemos até cursinho um sobre a vida do outro. E além de olhar para ele, consigo olhar além dele... e é engraçado, se eu não conhecesse tão bem, eu até comprava. De novo e de novo, mas não! E morre de medo de me ver em outros braços e eu sei, mas e daí? Se eu já me acostumei e sei que nos seus braços cabe mais de mil. Sendo de uma vez só - ou não. O coração não dispara mais, só dá uns pulinhos pequenos, com os pés machucados, mas em pé. Acabei de curá-lo, tratamento dificil, prolongado, mas em pé. Ordenei para que ele parasse de pular, eu juro. Mas sem que eu perceba ele dá umas piruetas na medida do que pode. Grande mentiroso e um pouco mesquinho, é de dar dó e até sentir uma vontade de cuidar, dar um jeito nisso. Mas não! É curioso, e pergunta sobre mim todos os dias e procura por mim quando quer e me acha. E quando não acha, desiste de me procurar para não dar uma de arrependido. Também, porque não sente tanta minha falta assim. Eu sei, eu sei. É superficial a maneira como ele age enquanto eu me aproximo, como quem não sabe pra onde olha, se me espera ou vai embora. Provoco, provoco e recuo. Como sempre fiz, só para você manter a ideia de que eu não mudei! Ninguém acredita que estamos separados, porque todos podem ver os nossos olhares sempre se encontrando. A gente se vê, se pede, se abraça quando dá, e se não der, tudo bem. Não fazemos questão, também não nos gostamos tanto assim. Essa é a hora que você conta para os seus amigos o quanto idiota foi por ter me perdido, e eles reconhecessem. Mas não te consolam, também não são tão amigos assim, não é? Eu tenho um jeito de sorrir que te deixa imobilizado, mas você prefere optar pelo orgulho, mas pra mim isso tem nome: Amor.
... Mas também, não tanto amor assim!

por: Bárbara Clara

terça-feira, 17 de maio de 2011

Acorda, Querida!

Alguém, bem a frente, me viu chorar, me viu sofrer e se compadeceu da minha angústia, dos meus medos. Quando contei dos meu pesos esse alguém me confessou que, na minha idade, também era vítima das injustiças e incompreesões das pessoas. Eu, aflita para me livrar de toda a carga que me pesava, perguntei com esperança: - O que você fez então, para que a vida não te magoasse mais?
Ele sorriu como se olhasse para uma criança inocente fazendo uma pergunta óbvia de se responder e disse:
- Deixei de ser a vítima. E foi embora como um sopro de ânimo.




Qual é o seu drama de hoje?

Marina Lemos

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Recomeçar

"De algum modo já aprendera que cada dia nunca era comum, era sempre extraordinário. E que a ela cabia sofrer o dia ou ter prazer nele. Ela queria o prazer do extraordinário que era tão simples de encontrar nas coisas comuns: não era necessário que a coisa fosse extraordinária para que nela se sentisse o extraordinário."
Clarice Lispector - O Livro dos Prazeres





Que tal voltar à escrever aqui, sua preguiçosa? ;D